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Seção de Crônicas da Casa da Cultura

A Sogra estava Certa

 

Cissa de Oliveira


Quando ela se casou, até que enxergava um certo charme nas manias dele. Nascida e criada no interior, de uma família simples e com seis irmãos, surpresas eram coisas que faltavam em sua vida. Até que nem era de fazer muito luxo e morar numa grande cidade era um sonho antigo. Assim, e estando apaixonada, achou que deveria fazer vistas grossas àquilo; afinal quem é perfeito?

O apartamento era bonito e aconchegante e melhor de tudo: Não havia mais ninguém para desarrumar as coisas. Se a saia era deixada no segundo cabide, da direita pra esquerda, era lá que estaria quando a fosse procurar. Se o perfume fora guardado na primeira prateleira, era lá que estaria quando dele se lembrasse. Mas como nem tudo é mesmo perfeito, logo descobriu que na vida, tudo é uma questão de troca, ou torna-se insustentável, até o amor.

Sem demora, percebeu que às manias que ela já conhecia, somavam-se outras, muitas outras. A que lhe parecia pior era o fato dele não gostar de fechar coisas. Vidro de remédio, vidro de perfume, vidro de tempero, tubo de pasta de dente e até portas. Não importava, se tinha tampa, trinco ou fechadura, precisava de uma revista diária. Dela, claro!

Tempos depois, soube que a sogra fazia brincadeiras quando ele era criança, deixando-o do lado de fora de casa com a porta trancada. As vezes se perguntava, se aí estaria a raiz daquela mania de não fechar nada. Vai saber! Já ouvira em algum lugar que medos as vezes são originados de coisas inconscientes. Vai ver que ele tinha era medo de fechar as coisas como deveria e não sabia. Por que então não fazer algumas concessões de vez em quando? E a lista das concessões ia crescendo. Da parte dela, claro!

Já aconteceu com você precisar pegar um vidro de shampoo e ele estando aberto, escorregar e cair derramando-se no box do banheiro? E já aconteceu com você de se levantar de madrugada e quase trincar as canelas ao esbarrar numa gaveta aberta? E de virar o pimenteiro sobre aquela salada caprichada e descobrir que "sabe-se lá porque cargas d´água" ele já estava aberto? Diabos, lembra perseguição!

Mas o cúmulo foi eles terem sido abordados na rua por dois trombadinhas que sem esforço qualquer abriram o que obviamente já estava aberto: a porta do carro. Logicamente a do lado dele. Susto! Sorte que eram bandidos bunda mole.

Bem, enquanto a questão era o medo de fechar coisas, tudo bem. O problema foi quando ela descobriu que tinha uma rival. Sim, rival. Pior é que a outra, além de ser quadrada, lisa feito uma tábua e de fazer qualquer sujeito "emburrecer", ainda falava mais do que ela e todo o restante das mulheres da família juntas! Seu nome? Televisão. E com mania de televisão não dá mesmo pra fazer concessão. Sabe por que? Porque a essa mania agregam-se outras.

Juntem pelo menos cinco anos de casamento e uma televisão, e vejam porque muito marido tem tudo pra deixar de ser o Homem da vida de sua própria mulher.

Foi aí que ela repensou o óbvio: Não sendo mesmo Psicóloga, bem poderia trancar a porta deixando-o pra fora!

Pensando bem, surpresas demais cansam e a sogra é que estava certa!


Outras obras:
[Livro de Bolso X Privacidade, Crônica de Cissa de Oliveira]
[Inocentes, Crianças e Loucos, Crônica de Cissa de Oliveira]


A autora, Maria Sileuda Moreira de Oliveira. É bióloga, mestre em genética e biologia molecular pela Unicamp, atualmente desenvolvendo tese para Doutorado na mesma área. Apenas recentemente (2000) passou a colocar no papel suas poesias e prosas. Dedica-se também à poesia voltada para outras obras de arte como pinturas e músicas. Participou de diversas publicações coletivas, como "Seleção de Poetas Notívagos 2001", "Com licença da Palavra" e outras.

Contatos: sileuda@unicamp.br

Página Publicada em 05/out/2004